O prazer perfeito é exigência ética

O prazer perfeito é exigência ética

Por Ir. Pe. Francisco José Gomes de Sousa, NJ*

 

O homem moderno com o desenvolvimento dos seus conhecimentos científicos, técnicos, filosóficos, psicológicos e econômico deve também desenvolver a máquina com perfeição. Essa perfeição acontece com o decorrer do tempo. É preciso saber o que se está investindo e se está atingindo a convivência do outro.

Nos últimos anos, grandes acontecimentos vêm nos chamando à atenção no que diz respeito à convivência humana. E uma das preocupações é saber se o homem técnico tem consciência do fator primordial que não pode ser esquecido. O que não adiantaria ele construir muito artifícios estéticos se não conseguir o prazer da perfeição ou do perfeitamente da arte de conviver.

As relações humanas, portanto, sendo estruturas básicas para a vida social e oficial teriam por objetivo integrar o científico, o técnico e o econômico de maneira a estabelecer e preservar o desenvolvimento social e a paz através da cooperação mais harmoniosa.

Ora, segundo Aristóteles, na Ética a Nicômaco livro X cap. 4, a nossa mente é estimulada e desenvolve intensa atividade de acordo com aquilo que nós escolhemos, ou então ela se torna relaxada. Então todos os homens desejam o prazer porque aspiram à vida.

A vida é uma atividade, e cada um é ativo em relação às coisas e às faculdades que mais ama. Portanto, deve ter prazer em fazer tudo perfeito porque é uma exigência da própria existência humana. Como por exemplo, o músico que tem prazer em ter o ouvido afinado para perceber a melodia, o estudioso tem que estar com o intelecto perfeito com referência às questões teóricas e assim cada um na arte que tem por atividade. Então o prazer é a atividade completa, vida e desejo andam muito juntos, pois aspiram também ao prazer. Visto que, para cada um está completa a vida que lhe é desejável.

Portanto, não basta o progresso, ele não é suficiente para se atingir o que é perfeito. As exigências éticas não são técnicas e nem poderiam ser, porque muitas vezes a técnica é uma violência à ética, porque ela não está a serviço do homem, isto é, do homem ético, mas a serviço do utilitarismo e do reducionismo, tanto em nível pessoal como coletivo. Ele não entende os valores sublimes, aqueles valores que estão acima da auto-afirmação pessoal, por meio dos quais a dignidade humana é deixada em segundo plano. A isso se chama crise ética.

Na relação com o outro, tendo a pessoa do outro como um outro “eu”, encontramos um elemento novo determinante da vida do homem, o amor. É impassível pensar o amor sem ter uma relação com busca de dignidade, ver que o outro é semelhante e precisa ser digno.

E no aristotelismo, na forma do prazer perfeito, se dá a convivência interpessoal com certa intimidade que motiva a vida feliz do outro, fazendo que o outro se realize e se auto-afirme a sua própria existência. As relações têm muitos pontos de convergência e o espaço para a efetivação da ação nobre e virtuosa como assegura Aristóteles.

Portanto o prazer não é apenas a presença do outro. É compartilha. É ter um compromisso com as virtudes, isto é, vivência juntos. Isto é o que Aristóteles chama de felicidade, que não são os prazeres do corpo, do qual até o escravo foge, mesmo que a sociedade grega ache que o escravo não participa da felicidade, a não ser que ele participe da vida humana1.

Tudo isso para dizermos que o prazer é uma exigência ética. E que é fundamental na vida dos homens, independentemente da situação pessoal de cada um. Ou que seja social, política, e econômica e cultural. O caminho ético deve ser desejado por todos. Desde que se trate da vida humana, como a coisa mais bela e mais preciosa. A sociedade que não dá o devido valor à vida, não pode se chamar de sociedade pode ser qualquer coisa, menos uma sociedade humana.

 

1 Ética a Nicômaco. Livro X cap. 6

 

BIBLIOGRAFIA

 ARISTÓTELES. A Ética, Edições de Ouro, sd.

_____________. Ética a Nicômaco, Abril cultural, São Paulo, 1979

BRÉHIER, Émile. História da Filosofia, Tomo Primeiro, Mestre Jou,

São Paulo, 1977

ENCICLOPÉDIA LOGOS, Verbo, Lisboa/São Paulo, 1992.

HIRSCHBERGER, Johannes.  História da Filosofia na Antigüidade,Herder, São Paulo, 1969

OLIVEIRA, Manfredo A. de Oliveira. Ética e Sociabilidade, Loyola, São Paulo, 1993 (Coleção Filosofia nº 25)

_____________________________. Ética e Práxis Histórica, Ática, São Paulo, 1995

 

*Sacerdote pertencente ao  Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduado em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e Teologia pelo ITEP (atual FCF). Também é especialista em Filosofia Moderna do Direito pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e Escola Superior do Ministério Público do Ceará.

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